Quando o FBI afirmou que “não investigava” avistamentos de UAPs - Revista Ufológica

Quando o FBI afirmou que “não investigava” avistamentos de UAPs

Análises e Debates

No dia 8 de maio deste ano, o Pentágono publicou o primeiro lote desclassificado de arquivos relacionados aos UAPs (Unidentified Anomalous Phenomena, ou seja, Fenômenos Anômalos Não Identificados). A iniciativa de trazer à tona esses documentos sigilosos responde, segundo o governo de Donald Trump, ao “compromisso com a transparência pública” em relação aos avistamentos de UAPs.

Até o dia 10 de julho, foram divulgados quatro lotes. No último deles, há um arquivo do FBI que apresenta um memorandum do governo norte-americano, de 1967, em que é descrito um incidente reportado por uma criança de onze anos: ela teria ouvido um “barulho estranho” e visto “flashes de luz”, por volta das 20h30. Entretanto, tal como é descrito no memorandum, a criança “não forneceu nenhuma descrição adicional”, mas “afirmou ser um UFO”.

Quando o FBI afirmou que não investigava avistamentos de UAPs - memorandum com relato de criança sobre um UFO - Revista Ufológica - Fonte: Departamento de Guerra do governo dos Estados Unidos (https://www.war.gov/UFO/)
Memorandum com relato de criança sobre um UFO – Revista Ufológica – Fonte: Departamento de Guerra do governo dos Estados Unidos (https://www.war.gov/UFO/)

O arquivo do FBI também inclui uma troca de mensagens entre um agente do departamento de investigação e um senhor chamado Larry Bryant, um pesquisador em Ufologia que trabalhou para o Departamento do Exército dos Estados Unidos por 36 anos.

Na mensagem escrita ao FBI, Larry Bryant afirmava que havia recebido uma cópia de um relatório do Departamento do Exército norte-americano. O documento relatava um suposto avistamento, em 8 de abril de 1954, de um objeto voador não identificado ocupado. Esse UFO teria sido, segundo Bryant, perseguido por membros da Guarda Costeira, e visto por três civis. Logo, com base no relatório, o ufólogo solicitou ao FBI mais informações sobre as eventuais ações que possam ter sido tomadas em relação ao evento reportado, e perguntou ao departamento se havia alguma lista de arquivos com casos de avistamentos de UAPs entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 1954.

Carta de Larry Bryant ao FBI – Revista Ufológica – Fonte: Departamento de Guerra do governo dos Estados Unidos (https://www.war.gov/UFO)

A resposta do agente do FBI Richard Held foi clara: “Lamentamos informar que o FBI não possui informações relacionadas ao avistamento UFO que o senhor descreve em sua carta”. Além disso, o agente informa a Bryant que o departamento “não coleta informações sobre avistamentos UFO”.

A informação concedida pelo agente Held não era o que o ufólogo esperava, sobretudo porque, tal como podemos ler na penúltima e última linhas do primeiro parágrafo, Bryant explica que o relatório emitido pelo Departamento do Exército mencionava o envio de uma cópia ao escritório do agente do FBI.

Logo, pode-se dizer que o FBI mentiu ao ufólogo?

Para entendermos a situação, vale a pena destrinchar a relação entre o FBI e as forças militares aéreas dos Estados Unidos no tocante às medidas relacionadas aos UAPs.

O que realmente faz o FBI?

O FBI (Federal Bureau of Investigation) foi fundado em 26 de julho de 1908. Conhecido até 1935 apenas como Bureau of Investigation, tem-se a impressão (moldada, principalmente, pelo noticiário e por filmes) de que o FBI é apenas um equivalente da Polícia Federal brasileira, por exemplo.

Entretanto, o FBI, além de ser uma agência de investigação criminal, funciona como um departamento de segurança e de contrainteligência. Em outras palavras, o FBI, entre seus papéis, trabalha para “garantir” a proteção de segredos estatais e militares, especialmente as relacionadas a tecnologias.

Ou seja, o trabalho de contrainteligência do FBI visa, acima de tudo, investigar todo e qualquer movimento de espionagem que possa ameaçar a segurança do país. Conforme descrito no site do departamento, entre os objetivos da instituição está o de “impedir que armas de destruição em massa cai nas “mãos erradas”.

Mas o que esse objetivo tem a ver com UAPs?

A linha de raciocínio estratégico do FBI

A primeira coisa que o FBI busca saber não é se um UAP é, de fato, um objeto extraterrestre, mas sim se ele é, por exemplo, um drone espião da Rússia, China ou de outro país sobrevoando uma região dos Estados Unidos.

A título de comprovação da linha de pensamento: na quarta remessa dos arquivos desclassificados, há um Relatório de Inteligência Aérea, datado de 1949. Esse documento contém uma análise de incidentes envolvendo objetos voadores nos Estados Unidos. Vale a pena ressaltar que o relatório utiliza a combinação de termos “flying saucers” (discos voadores) uma única vez, e em seu lugar e ao longo da análise, emprega “flying objects” (objetos voadores).

Relatório de Inteligência Aérea, de 1949 – Revista Ufológica – Fonte: Departamento de Guerra do governo dos Estados Unidos (https://www.war.gov/UFO)

Na página 7 do relatório, são consideradas duas possibilidades que explicariam a origem dos objetos voadores, apresentados textualmente como “dispositivos”: a primeira delas teria origem doméstica; a outra teria origem estrangeira. Caso fosse confirmada a segunda possibilidade, “pareceria mais lógico considerar que os objetos fossem de origem soviética“, conforme sugere o relatório.

Relatório de Inteligência Aérea considera possível origem soviética de objetos voadores – Revista Ufológica – Fonte: Departamento de Guerra do governo dos Estados Unidos (https://www.war.gov/UFO)

Embora o relatório acima não tenha sido produzido pelo próprio FBI, mas sim pela Air Force (USAF) Air Intelligence Division (Divisão de Inteligência Aérea da Força Aérea), ambos partem do princípio da contrainteligência, operam sob a lógica da segurança nacional imediata, e não de algo que possa ser um fenômeno anômalo não identificado.

A cooperação entre o FBI e a Força Aérea dos Estados Unidos

A proximidade de linha de raciocínio estratégico do USAF e do FBI não existia ao acaso e nem de forma isolada. Os dois órgãos mantiveram uma estreita cooperação por três anos. Ela começou em julho de 1947, o ponto temporal marcado pelo Caso Roswell.

Em um relato histórico publicado pelo FBI, em abril de 2010, o departamento contextualiza o início de seus trabalhos investigativos relacionados aos objetos voadores não identificados:

O Exército queria a ajuda do FBI – pelo menos no início. Em 30 de julho de 1947, a Secretaria emitiu este aviso a todos os seus escritórios: (B) Discos Voadores – O Bureau, a pedido da Inteligência das Forças Aéreas do Exército, concordou em cooperar na investigação de discos voadores…. Você deve investigar cada instância que é trazida à sua atenção de um avistamento de um disco voador, a fim de verificar se é ou não um avistamento de boa-fé, um imaginário ou uma pegadinha.

A partir da informação exposta pelo próprio FBI, poderíamos afirmar que a resposta do agente Richard Held dada a Larry Bryant foi mentirosa?

Carl Sagan nos lembra bem: “Afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias“. Especialmente quando levamos em consideração alguns contextos. Obviamente, o agente do FBI não se viu obrigado a explicar ao ufólogo que o acordo de cooperação entre o FBI e a USAF havia terminado em julho de 1950, ou seja, 24 anos antes da troca de mensagens entre o agente e o ufólogo.

Na data que marcou o fim da cooperação, o FBI foi explícito sobre qual órgão seria o responsável por investigar informações sobre UFOs: “A jurisdição e a responsabilidade pela investigação de discos voadores foram assumidas pela Força Aérea dos Estados Unidos. As informações recebidas neste assunto são imediatamente entregues à Força Aérea, e o FBI não tenta investigar esses relatórios ou avaliar as informações fornecidas“.

Entretanto, o término da colaboração oficial com a Força Aérea dos Estados Unidos no tocante aos UAPs não significou o fim da atuação do FBI nesses casos. Um dos exemplos da atuação do departamento investigativo do governo norte-americano é o Caso Varginha, de 1996.

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